PERSEGUIÇÃO
O sino da pequena cidade badalava marcando meia-noite de um dia quente e nublado. Além das
badaladas, o único som que se ouvia era o de pés apressados. Estes pés
pertenciam a uma moça de cara meio tristonha e cansada, que a tempo já havia
passado da aurora da vida. Sonia estava atrasada. A coragem de prosseguir já
começava a lhe faltar. Sentia as pernas
tremendo e o coração martelando. Mesmo atrasada decidiu parar na pitoresca
praça da cidade, para se acalmar e pensar em como aquilo havia ido tão longe.
Sonia sempre fora uma pessoa fechada, mudando de assunto para não falar
de sua vida. E sempre se dera muito bem assim. Ela se mudara a pouco mais de um
mês para a cidade de Piloto, no Mato Grosso. E no mesmo momento em que
desembarcou do ônibus gostou dali, a cidade era ideal. Quanto menor ela fosse,
menores eram as chances de ser descoberta. Gostava da cidade e de seus
habitantes, que embora desconfiados e ignorantes a haviam tratado com gentileza.
Os curiosos moradores foram logo desenterrando, ou melhor, imaginando a vida de
Sonia, como ela não negava nem afirmava, a história que circulava pela cidade
era tida como verdadeira. Logo já estava mal falada e aqueles que lhe eram
corteses, viravam a cara ao vê-la passar. Seu sotaque era motivo de chacota e seu
palavreado perversamente imitado. Não era mais bem-vinda. A vida era
complicada.
Mas ainda podia piorar e foi o que aconteceu algumas semanas atrás. A
recente onda de assassinatos tirou o sorriso do rosto dos moradores e o desdém
para com Sonia se transformou em medo. Ela era a suspeita. Embora estivesse em
casa dormindo nas horas em que os assassinatos eram cometidos. Nada havia
feito, mas quem mais faria isso, senão a
estranha recém- chegada? Era o que pensavam os moradores.
Os moradores estavam com medo, mas
Sonia estava aterrorizada. Já tinha visto aquilo e receava o que aconteceria em
breve. Mas dessa vez era diferente, ela sabia. O tom das cartas havia mudado, o
doutor estava mais enfático. Ela tinha medo, muito medo de ser trancafiada
novamente. Por isso fugia de cidade em cidade. As lembranças lhe torturavam. A
clínica em que sua família a internara era bem equipada e moderna, mas ainda
assim, uma prisão.
Não tinha em quem confiar, a não ser no doutor que a tirara da clínica.
Ele dizia que a amava e que cuidaria dela, mas Sonia nunca quis qualquer
ligação com alguém, muito menos com seus carcereiros.
Sonia sempre soube que os assassinatos eram culpa do doutor, que não
tinha nome, para ela seria sempre O Doutor, ele era louco. Mas pior que sua
família, pois sua família não ligava pra ela, enquanto ele a perseguia. E o
senso de proteção do Doutor era simplesmente anormal. Mas ela não podia de
maneira alguma denuncia-lo, não sob o risco de ser trancafiada novamente. E
afinal quem acreditaria numa mulher que era considerada louca? Ela preferia não
arriscar.
O encontro era a única chance que ela teria de acabar com aquela corrida
incessante, onde o único prêmio era o sangue dos inocentes. Fazia anos que não
vira mais o doutor. Será que ele ainda usava aqueles óculos na ponta no
nariz? Será que ainda tirava a barba
todos os dias? Será que usava o mesmo sobretudo preto para cobrir a barriga
proeminente? Será que sua bengala ainda era a mesma? Ela não estava ansiosa
para descobrir. A letra miúda da carta a avisara, se não estivesse no lugar
marcado, seria denunciada. Afinal ele sempre soubera de seu paradeiro.
Sonia acorda de seus devaneios na hora em que seu relógio marca 00h30min,
ela estava com a coragem renovada e precisava correr. A sua volta tudo passava
como um borrão, mas em sua cabeça tudo estava claro. Hoje estaria finalmente
livre.
Chegou ao estacionamento de um videolocadora há tempos fechado. Entrou
devagar, com o cuidado de uma presa que sabe estar invadindo o território do
seu maior inimigo. O lugar estava sujo. Ratos tomavam conta do local. E ele
estava lá, com sua bengala de madeira polida, seu sobretudo, nada parecia ter
mudado. Até o mesmo sorriso, que sempre deixara Sonia amedrontada, estava lá. O
cabelo estava mais ralo e fino do que era. Não olhou em seus olhos. Como ela
não disse nada coube a ele iniciar a conversa:
- Olá, tudo bem?- perguntou com um sorriso no rosto demente.
- Não, nada está bem! Você não pode matar essas pessoas mais e tem que
parar de me perseguir!
- Você não pode fazer isso comigo! Esqueceu-se do que eu fiz por você? Se
esta livre é pela minha boa-vontade.
- Sua boa-vontade? Até parece. – A raiva lhe subia pela garganta. – Era
apenas medo que eu pudesse denuncia-lo pelo que fez aquela paciente.
Esqueceu-se? A bela moça que dormia no quarto ao lado ao meu e que você matou?
Ah sim, naquela noite eu ouvi seus passos pelo corredor e os gritos da pobre
garota...
- Pare! Cale a boca. Foi um acidente...
- Acidente? Aham sei bem que tipo de acidente ocorreu...
Ela não havia terminado de falar, quando a mão no velho desceu pesada lhe
atingindo o rosto e a atirou no chão. Ela caiu pesadamente sobre seu braço, mas
logo levantou. De repente toda a raiva acumulada por anos lhe subiu pela
garganta. O medo, o desespero, os anos que lhe foram roubados, tudo explodiu. A
faca que estava na bolsa havia caído, junto com Sonia. Ela pegou a faca e, sem
pensar duas vezes, perfurou impetuosamente o peito do Doutor, que caiu inerte.
A sensação de liberdade era incrível, como pode viver tanto tempo presa?
O mundo era todo seu e ela pertencia ao mundo. Agora não haveria mais doutores
no quarto ao lado. Sonia era livre pra ser quem sempre fora.
Autora: Dara Cariel de Souza
Turma:2124
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